18 de dez de 2012

Nao tenho sequer um objeto do meu pai


Nenhum relógio antigo. Nenhum canivete suíço. Nenhum jogador de botão. Nenhum cachecol. Nenhuma caneta especial.

 
Ele não me repassou um livro para lembrar sua importância. Não me chamou para o escritório em separado a fim de antecipar a mínima partilha. Não redigiu uma carta explicando o que era ser gente grande nesse mundo caotico.

 
Mas herdei de meu Pai o que sou. De meu pai herdei uns alguns.

 
Quando pequena, eu não o entendia. Hoje, Ele vai comigo, assim calado no dia a dia. O pai liga pra saber se estou com vontade de comer doce.

 
Tenho dele a risada larga, bonachona, uma gaita que impulsiona o rosto para trás e me pede para fechar docemente as pálpebras.

 
Nosso pulmão é carregado de sotaque, o pulmão é o nosso código secreto. Respiração. O dom de fazer acalmar via respiração.

 
Tenho dele o jeito de cortar tomates na tábua, horizontal, absurdamente errado e divertido.

 
Tenho dele a mesma compulsão pelo atraso: sempre acreditando que posso fazer mais alguma coisinha antes de sair.

 
Tenho dele as mesmas distrações e desculpas furadas, as mesmas canetas explodindo nos bolsos, a terrível a mais terrível de todas; não saber atravessar ruas. Não sei. Não sei calcular o tempo do carro com o tempo da caminhada até o outro ponto. Tenho pensamentos sofisticados demais enquanto estou andando. Não vejo nada.

 
Tenho dele o mesmo ímpeto de curar a raiva com uma caminhada pelo bairro.

 
Tenho dele a lembrança da barba da juventude, o bigode, e a tendência de levantar as golas das camisas.

 
Tenho dele a mania por sentar em balcões e experimentar pastéis em cidades estranhas. Não tomar leite nelas.

 
Tenho dele a mania de estar sempre na cozinha e os olhos puros de medo.

 
Tenho dele a vontade de cheirar o cangote dos filhos.

 
Tenho dele a mania por esculturas, madeira de demolição, de cavalos e Dom Quixote.

 
Tenho dele a compulsão por riscar livros e escrever diários por códigos.

 
Tenho dele o dom de perder dinheiro e juntar amores.

 
Tenho dele o costume desagradável de gemer diante de um prato favorito. Huummm. Roceira como só.

 
Tenho dele a sublime certeza de que a fé do Filho de Deus é a melhor coisa e oro quando vejo o mar ou uma criança sorrindo ou as pessoas chorando no apelo na confissão por Jesus. Escolha.

 
No momento em que viajo de avião, acabo me protegendo do frio transformando o paletó em cobertor. O casaco fica invertido, de frente para mim, com as mangas cruzadas nas minhas costas.

 
Aquele casaco é também meu pai me abraçando.

 
Bom ter Pai e pai.

 
Meu Pai está espalhado pelo meu caráter. Preciso em tudo dele. A garantia de amor, justiça, santidade e fogo. Nem uma vírgula emprestada se dá se não for assim, desse relacionamento que não vai ter fim. O que é uma lembrança para quem tem toda a eternidade?

 
Cada gesto que vim a aprender ao longo da vida é o esforço arredondado de copiar sua letra e repassar seu temperamento ao papel vivo da vida. Caderno de couro e carne. Retrato.

 
Ele está dissolvido em meus dias. Invisível e forte como o vento.

 
No momento em que escrevo, penso, acabo me lembrando das palavras doces, dos conselhos das historias que penetraram minha alma, espírito e carne. Alias mudança. Domínio. A coisa mais surpreendente de aprender. Dependência. Às vezes sinto necessidade de conforto durante a dura realidade do dia a dia que mais me choca do que surpreende. Uso seu manto de bondade como cobertor. O manto fica envolto a fim de esconder o Passarim. Proteção.

 
Aquele manto é também meu Pai me abraçando.

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