15 de jun de 2017

Quando as estrelas brilham, eu oro por você.

Uma curiosa ideia antiga, intuída, passou a viver depois de um encontro na vida que distante está: o diálogo foi tão tenso, pouco negociado, uma esperança miúda...
Eles estavam trazendo a realidade à tona. 
Ela viu sair de si uma emoção difícil: o medo, com razoável intensidade. E raiva de ter medo de não ter. Ouvindo música brega/pop tipo projota "ela só quer paz"
Com outra emoção guardada, pensou: 
"Se tens lugar em mim, o amor será meu outro ponto cardeal da bússola. Seremos um para o outro um lugar que vai doer, mas pode perdoar."

E não pode naquele dia. Não se acolhe assim. Tem que dar tempo. 
Perigosa essa constatação, traz a ideia de ser a continuidade de crescimento. Nesse mundo sabemos que é impossível viver sem doação, e sem abrir mão é impossível. 
A capacidade de aguentar, que nos é exigida, fecha portas para as outras emoções, mas ainda temos janelas. 
Ela acordou tão cansada no dia seguinte, ficou mais tempo ausente do que seus costumeiros três dias de aflição. Os meses de limite permitido para estar numa relação sem se levar junto, já haviam passado, desde que ouvira sobre o que são relações. Ele a teve inteira de uma maneira muito natural. Ela não se deu conta de que estava definhando fechada, em torno de uma única emoção — o mesmo que costumava criticar. E seu coração ficava cada vez mais gelado. 

Acordou ainda surpresa pela resposta ao absurdo daquela frase ecoando. "Eu te amo", mas vinda de outras fontes. Uma declaração enviada do fundo da alma, deveria ter sido uma sugestão para que ela falasse algo para os dois. 
Lembrou que saiu humilhada às altas temperaturas, com uma mistura de saudade e uma leve irritação nos lábios de tanto dizer mentalmente que não viveria isso. Passou a manhã caçando o descanso pelos travesseiros. Daquele dia em diante, caçar sinais da presença dele, se tornou uma mania. Sugeriu mentalmente até mesmo que deixasse passar sem falar nada, nunca mais. Nem mesmo se reconhecia nesses gestos. Na verdade, arbitrariamente, decidiu ser ela mesma, agarrar seus sonhos e possibilidades . Sem pensar, sem sentir. Jogou-se na emoção que estava vivendo. escreveu numa mensagem, mas nunca teve coragem de enviar.

A dor, que marcou longos dias e anos, voltou com mais força. Querem criar castelos por trás dos discursos — decretava sempre que podia em conversas mais reservadas. Mas compreendia que era preciso defender o amor. Seu silêncio era fuga ou engajamento? 
Não apontava publicamente nenhuma contradição. Durante os dias de ausência viveu com intensidade a distância dele. Poucas foram as vezes em que não estavam juntos. Ela queria um colo. O mundo retira de nós todos os colos possíveis. E não os há. 

Ele estava lá. 
Um desses dias mereceu memória. Lá estava ela sentada  na rua do Bar que tomaram aquela água ardente, fazendo uma das coisas de que gostava. Comprava um gin tônica para sentar e ler de graça as revistas de arte que pegara numa dessas galerias metidas a cool. Era seu treinamento para um dia realizar esse mesmo procedimento em Londres — “uns querem Nova York, outros Istambul; eu quero os dias de chuva em Londres... parecem tão aconchegantes como estar com você”. Ele guardou, entre páginas de um livro, a camiseta com seu cheiro de não banho, com esse recado de bom dia deixado por Ela borrado de desculpa por ainda estar ali. Ele sentado na poltrona do butiquim aceitou a proposta e pegou um livro mas não cativou. Já havia lido, leu poucos livros mas jamais os esquecia, foi intencional, para se deliciar observando Ela. Seu olhar fixo sobre o rosto dela incomodou-a. Ela sorriu mas pediu que ele se concentrasse na leitura. Ele não sabia mais quem era, do que gostava, do que não gostava, o que queria. 
A euforia de conviver com o amor naquela hora o desequilibrava. Um comportamento que parecia ser proposital. 
O excesso dela cativava-o. Ele era divertido, mas ensaiava certa agressividade quando ela não se demonstrava atenta. 

Os dois. 
E os corações gelados.

Como não acontecer isso diante de tamanha intensidade? Ela engravidou mas foi interrompida  a gravidez. Ele não soube o que fazer. Ela sabia que desejar aquela gravidez era muito mais uma fantasia egoísta dele do que a vontade de ficar junto. Vamos acreditar  nisso. Havia impaciência em seu tom, de quem não quer se dar conta do que estáva acontecendo, decidir apenas virando a página de imediato. Isso reforçava ainda mais os receios deles. Ele não a escutava. Ela não entendia. Não havia reciprocidade de emoções. Ela estava inteira na relação mas com uma emoção diferente, mais presente. E com a tranquilidade de que aquela relação era um presente para sua vida e não a vida por inteiro. Ele, sua ausência, era outra coisa. Que nem ele sabia ao certo. Talvez por não ter se envolvido nessa intensidade anteriormente não sabia lidar com as emoções e esperava a mesma euforia dela.Mas ela era inevitavelmente indecifrável.  

Não tinha mais alunos para inventar aulas interessantes e arejar a cabeça; nem mais colegas de trabalho para as pequenas conversas, mesmo que controladas. Ele estava com amigos recém casados . Belo Horizonte é uma cidade de amizades. Impossível lidar com a vida que se vive nela sem parceiros para pensar junto. A vida da casa precisa da rua. Essa era a hora que Ele precisava de um amigo, mas estava só. Do jeito dela a tristeza, inibiu até mesmo as respostas de e-mails com convites de pessoas próximas. Várias vezes Ele perguntou se não sairiam com seus amigos, Ela desconversava, porque não queria. Agora, sentia vergonha em falar para alguém.  


As próximas semanas seriam regidas por sequências de emoções diversas, em demasiado. Ele aprenderia, como num parto a fórceps aprender tudo, e vê-la toda. Ninguém pode te ver nua e não ter um compromisso com você. Pq aquilo é mais do que a sua Alma, exposta. Era um efeito que ele causava. Outras dimensões. E que tarefa complexa. E ela aprendendo a ser e a dar lugar. Fim.


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