13 de ago de 2012

Sabe;


Em muitos trechos do caminho, às vezes bem longos, carregamos muito peso sem também notar. A gente se acostuma muito fácil às circunstâncias difíceis que podem ser mudadas. A gente se adapta demais ao que faz nossos olhos brilharem menos. A gente camufla a exaustão. A gente inventa inúmeras maneiras para revestir o coração com isolamento acústico para evitar ouvi-lo. A gente faz de conta que a vida é assim mesmo e ponto. A gente arrasta e faz de conta que carrega pétalas só pra não precisar fazer contato com as nossas insatisfações e agir para transformá-las. A gente carrega tanto peso, um bocado de vezes, porque resiste à mudança o máximo que consegue, até o dia em que o Senhor, cansado de não ser olhado, encontra o seu jeito de ser visto e de dizer quem é que manda.

Eu fiquei pensando no que esse peso todo, silenciosamente, faz. No que isso faz com os sonhos mais bonitos e charmosos e arejados. No que isso faz com a nossa espontaneidade. No que isso faz, de forma lenta e disfarçada, com o desenhista lindo que mora na gente e traça os risos de dentro pra fora. E o entusiasmo. E o encanto. E a emoção de estarmos vivos. Eu fiquei pensando no quanto é chato a gente se acostumar tanto. No quanto é chato a gente só se adaptar. No quanto é chato a gente camuflar a própria exaustão, a vida mais ou menos há milênios, que canta pouco, ri pequeno e quase não sai pra passear. Eu fiquei pensando no quanto é chato a gente deixar o Espírito Santo isolado para não lhe dar a chance de nos contar o que imagina pra nós e o que podemos desenhar juntos nessa estrada.

Mas chega um momento em que me parece que, a gente começa a desconfiar que algo não está bem e que, ainda que seja mais fácil culpar Deus e o mundo por isso, vai ver que os algozes moram em nós, dividindo espaço com o tal desenhista lindo que, temporariamente, está com a ponta do lápis quebrada porque a gente a quebrou. Sem fazer alarde, a gente começa a perceber os tímidos indícios que vêm nos dizer que já não suportamos carregar tanto peso como antes e a viver só para agüentar. Devagarinho, a gente começa a sentir que algo precisa ser feito. Embora ainda não saiba onde vai dar esse fazer de coisas... Embora ainda insista em fazer ouvidos de mercador para a própria consciência. Embora ainda estresse toda a musculatura, lesione a vida, enrijeça o riso, embace o brilho dos olhos, envenene os rios por onde corre o amor. Por medo da mudança, quando não dá mais para carregar tanto peso, a gente aprende a deixa-lo, desaprendendo um pouco mais a alegria. Quase nem consegue respirar de tanto esforço, mas agüenta ou pelo menos faz de conta, algumas vezes até com estranho orgulho. Até que chega a hora em que a resistência é vencida. A gente aceita encarar o casulo. A gente deixa o Senhor tecer a história. A gente permite que a borboleta aconteça.
Aquele momento dois ou três cata ventos...
Nascemos para aprender a amar, a dançar com a vida com mais leveza, a criar mais espaço de conforto dentro da gente, a ser mais feliz e bom, a respirar mais macio, essa é a proposta prioritária, eu sinto assim. Podemos ainda subestimar a nossa coragem para assumir esse aprendizado. Podemos nos acostumar a olhar o peso e o aperto, nossos e dos outros, tanto sofrimento por metro quadrado, como coisa que não pode nunca ser transformada. Podemos sentir um medo imenso e passar longas temporadas tristonhos de tanto susto. Podemos esgotar vários calendários sem dar a menor importância para o material didático que, aqui e ali, o próprio Deus nos oferece. Podemos ignorar as lições do livro que é o tempo e guardar, bem escondido do nosso contato, esse caderno de exercícios que é o nosso relacionamento com nós mesmos e com os outros e principalmente com o desenhista que é o próprio Deus em nós. Apesar disso tudo, a nossa semente, desde sempre, já inclui as asas. Já inclui o vôo. Já inclui o riso. Já é feita para um dia fazer florir o amor que abriga. E, mais cedo ou mais tarde, floresce.

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