20 de jun de 2012

Desejo mudar de desejo

Sempre precisou voar. Muitas vezes quebrou a cara, o coração e a ponta das asas.


Sempre desejou.

Sempre morrendo de pouco em pouco.

Mas também sempre apreciou a ordem assumida, não imposta.

Sempre procurou cumprir o dever compreendido, não o meramente suportado.

Sempre carregou a dor necessária, mas rebelava-se contra a medida de dor que seria dispensável.

Algumas crenças não pode negar, e absolutamente não se importava de ser chamado de personalidade romântica ingênua – sem elas não vivia. Precisava acreditar que todo encontro tem motivo de ser – ainda que pareça às vezes um erro de pessoa. As pessoas são lindas. Muito lindas.

Acreditar – ainda que em cinzas.

Acreditar que viver é melhor que recordar, pois o passado é uma pequena morte.

Acreditar que vale a pena ousar, pois a mediocridade é doce e fácil demais.

Acreditar que renunciar é melhor. E alegrar-se porque todos nascemos para sermos mais felizes do que em geral somos.

Eu, embora não pareça, sou assim: não tenho a presunção da simplicidade.Vou vivendo. Ardo na minha esperança, desabrocho minha dúvida, faço da vida todo dia morte e cruz e da verdade um pressentimento.

Apesar de toda inabilidade, escolho a calma. Apesar dos ferros, construo a dura liberdade. Prefiro a realidade à loucura,e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.

Pelo menos assim quero fazer: o que explode o ponto e arqueia a linha,e traça o contorno que ele mesmo há de romper. Desculpem, mas preciso lhes dizer:

Eu desejo o delírio de uma vida de verdade.



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