17 de mai de 2010

Da andança por ai.

Naquele dia era cedinho muitas coisas pra fazer, umas duvidas no ar e a vontade de fazer tudo tão direitinho. É que eu saí de casa sem imaginar  o que  encontraria. E fechei a porta atrás de mim, sem ouvir o conselho da chave. Foram horas e horas num saculejar enlouquecedor e o frio que nunca passava. E caminhei pelas ruas de pedra, sem escutar o canto dos passos. Entrei naquele transposte às pressas, enquanto as rodas e os freios e os carros silenciavam os prenúncios de um pequenino pássaro pousando no fio entre os postes.

Mas nada disso eu pude ver numa noite tão fria, pois é possível despedir-se do quarto onde se mora, trancar a porta atrás de si, guardar as chaves no bolso, subir as escadas correndo, caminhar pelas ruas de pedra, sair às pressas, e até mesmo olhar pela janela de vidro, olhar exaustivamente pela janela de vidro, sem sequer notar que o mundo avisa: não chora que hoje é um dia feliz.

Como o dia era uma quarta-feira, saí de casa sem imaginar o que aconteceria depois; ou como aquele tentava me estender a sua ancorada alegria. A alegria escondida entre as árvores e as rajadas de vento e dos tempos que a gente vai sonhando pra vida e vivendo noutro jeito. A alegria escondida entre os prédios e os raios de sol - os raios que, de tão leves, acariciavam o corpo de todo mundo e fazia quentinho o coração.

Se ao menos eu tivesse notado o quanto uma cidade acolhe, com os seus braços e colo de concreto, o que os outros não quiseram mais; ou se eu tivesse visto as pequeninas flores que as árvores deixavam cair sobre a minha cabeça de moça boba, quase infantil; e como essas flores adornavam os meus cabelos, sem fita e sem laço; se eu tivesse parado um instante, um instante que fosse, para ver o mundo cavando ternuras, na fundura dos seus abandonos, eu teria imaginado o que viria depois.

Mas nada disso eu pude ver numa noite tão fraca, pois eu andava pelas ruas de pedra com os olhos cegos de lágrima: eu inundando as ruas daquele lugar nas águas de minha tristeza; eu transbordando os seus muros e desmoronando as suas casas; eu afogando as pessoas em borrões de verdes e azuis. E só quando as lágrimas despencaram enfim dos meus olhos, refletindo, em seu brilho cristalino, o mundo inteiro lá fora, eu pude enxergar a beleza e sorrir. É assim que gente grande caminha. E pude então ser feliz.

Um comentário:

Daniel lucas disse...

Só faltava 1 oi aqui... #pronto